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Fui atropelado. Ainda bem que fui eu!

Foto: Paulo Marques Noticias

Mais um acidente ocorreu com ciclista no trânsito, desta vez, na cidade de Três de Maio/RS. A ciclista passa bem, não vamos detalhar o fato pois não é o objetivo, mas diante do que tem acontecido o Lucas do Nascimento, leitor aqui do site e nosso coach pessoal fez uma belíssima reflexão que merece ser compartilhada.

“Recentemente, o Cleber, uma das mentes por trás do site e deste movimento, sofreu um acidente de trânsito. Foi atropelado. Havíamos conversado sobre produzir mais textos além daqueles correspondentes a cada edição, havíamos cogitado um assunto, mas vou deixar aquele assunto pra uma próxima. Creio que seja uma boa oportunidade para falarmos sobre o Cleber e seu atropelamento.

Sim, o Cleber está bem, e o motorista prestou os socorros devidos. Não é sobre trânsito que quero falar. É sobre a impermanência das coisas, sobre a transitoriedade da vida.
No site “Amigo do Ciclista” o Cleber publicou um texto bem humorado intitulado “Fui atropelado, logo eu?”, no qual relata a sua experiência. Eu gostaria de estender-me um pouco sobre este título. Logo eu?

Quando vemos certos acontecimentos na TV que implicam certos tipos de acontecimentos negativos ou tragédias, muitas vezes nos parecem uma coisa muito distante. É meio “lugar-comum” dizer isso, mas creio que realmente nos sentimos como se tal coisa nunca nos fosse acontecer.

Sobretudo nós que vivemos uma vida consideravelmente civilizada (Brasil… civilização… não, não vou entrar nesse mérito), tendemos a esquecer certos fatos inerentes à própria vida, mesmo que civilizada. Um desses fatos é o de que acidentes, de fato, acontecem. E, assim como podemos sair deles ilesos, podemos sair com sequelas, ou mesmo não sair. Acontece. E acontece todos os dias.

Acontece com quem toma todos os cuidados, acontece com quem não se cuida. Acontece com quem não tem sorte e com quem tem. Acontece com quem chegou na hora e com quem chegou atrasado. Acontece com quem já viveu muito, e com quem teria ainda muitos anos pela frente. Acontece.

E mesmo aquele sujeito bem-aventurado que passou a vida inteira sem acidentes, ou saiu ileso de todos eles, um dia terá de passar o seu bastão. Alguém poderá achar meio lúgubre, meio macabro falar disso. Alguém poderá bater na madeira três vezes. Mas me parece um fato. Muito provavelmente, este dia chegará. E se vai chegar, de qualquer jeito, por que então falar dele? Justamente para falar de todos os dias que antecederão este último. E faço votos de que sejam muitos e felizes.

O que você está fazendo com a sua vida? Você vive sua vida como crê, ou sente, que deveria? Se você partisse hoje, ao olhar para trás, como veria a sua vida? Estaria satisfeito consigo mesmo? Se partisse hoje, você partiria em paz?

Veja que não me refiro a “aproveitar” a vida no sentido que muitos dão, de se divertir ao máximo possível. Porque diversão, se tomarmos a palavra do idioma português (e não sei se estou correto na etimologia) me lembra um sentido de “divergir”, ou seja, sair de um centro, desfocar. O sujeito fica um tempo focado em algum trabalho, cansa, e para relaxar e recarregar as energias, “se diverte”, diverge sua atenção.

Não me refiro a este sentido de “aproveitar” a vida. Refiro-me a vivê-la na sua essência. À dose de significado que você imprime na sua vivência diária. Se a sua vivência diária e suas pequenas, ou aparentemente pequenas, escolhas do dia-a-dia estão levando você não necessariamente para onde gostaria de ir, mas para onde sente que deve ir.

Você tem uma vida. Mesmo que você acredite em reencarnação (e eu não descarto esta hipótese), talvez nunca tenha parado para pensar que você, com o gênero sexual que tem, com o nome e nacionalidade que tem, com os pais, irmãos, e amigos que tem, não existirá novamente. Em outra vida você seria outra pessoa completamente diferente e pra todos os efeitos práticos seria como se essa vida de agora não existisse. Eu, Lucas, são-luizense, coach e sem filhos, posso voltar como a Joana, acreana, engenheira aeroespacial e mãe de trigêmeos. E assim como eu não me lembro de minha última vida, se tive, ela também não se lembrará. Mas, divago, e falo sobre coisas que não sei. Tenho muito respeito por esses assuntos transcendentais, e temo tratá-los com leviandade.

Você tem uma vida. Uma. E justamente esta enorme escassez a torna preciosa além de qualquer medida. Assim, parece-me que a vida não merece ser vivida de qualquer jeito. Ao mesmo tempo em que deve ser cuidada e preservada, também me parece que não deve ser trancada em uma gaveta, como joia que serve apenas de investimento e nunca é usada.

A vida passa rápido. Quando se é mais jovem nem tanto, mas depois dos trinta passa muito rápido. Quando você vê, dez anos passaram-se e você nem viu.

Certo estava o Roberto Carlos: “não deixe tanta vida pra depois”. Certo estava o Renato Russo: “se você parar pra pensar, na verdade não há” (amanhã). Não há amanhã. O amanhã é sempre amanhã. O amanhã nunca chega. Somente hoje se pode viver. Você pode até deixar algo para amanhã, mas quando você resolver entrar em ação, necessariamente, este dia já será hoje. Somente hoje se pode sonhar, planejar, agir, recordar, rir, chorar, viver.

Sugiro a você que reflita sobre a fragilidade e brevidade da vida, sobre como você a tem vivido, e sobre como você pode vivê-la melhor.
Deixo essa tarefa especialmente para o Cleber. Se ele ainda não fez essa reflexão enquanto estava se recuperando, que a faça agora.”

Bom, esse foi o belíssimo texto do nosso coach. Certo que seria mais fácil acusar o motorista, apontar para o ciclista, encontrar culpados. Mas o que levo dos últimos acontecidos (comigo e com os amigos ciclistas) é que o amanhã nunca chega. Então faça sua parte hoje.

E se fui atropelado, hoje digo, ainda bem que fui eu!

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One comment

  1. Ótima reflexão. Falando em transitoriedade, lembrei do belíssimo texto do Sigmund Freud sobre o tema (fragilidade da vida, finitude):

    “O valor da transitoriedade é o valor da escassez no tempo. A limitação da possibilidade de uma fruição eleva o valor dessa fruição. Era incompreensível, declarei, que o pensamento sobre a transitoriedade da beleza interferisse na alegria que dela derivamos. Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, do modo que, em relação à duração de nossas vidas, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado encanto. Um flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela. “

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